Juan Montes

Breve resenha biográfica
Apêndices

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Jornadas sobre João Montes (ano 2011)

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Retrato baseado no que apareceu publicado em "A Monteira" em setembro de 1890, obra de Urbano González

XAN MONTES (1840 – 1899)

Juan Bautista Varela de Vega tem publicado o trabalho biográfico mais extenso e documentado sobre este músico. A partir desta publicação tiramos umas linhas que ofereçam um breve resumem da vida de J. Montes:

Xan (Xoán / João) Montes (Juan Hermenegildo Montes Capón) nasceu num 13 de abril numa casa da Rua Nova de Lugo, provavelmente no número 30, filho de Félix Montes e Juana Capón. Como fregrês da paróquia de S. Froilão, foi baptizado na capela do mesmo nome da Sé lucense, sede paroquial naquele tempo.

Com nove anos de idade ficou órfão de pai em março de 1850 e em outubro desse mesmo ano ingressou como estudante no Seminário Diocesano de Lugo, por aquele então situado no edifício da Praça Maior que hoje ocupa o colégio dos PP. Franciscanos. No Seminário fez seus estudos até o ano 1863, cursando quatro anos de Latinidade e Humanidades, três de Filosofia, e cinco de Teologia. Nesses anos de estudo tomou o primeiro contacto com o estudo da música, ao receber as primeiras lições de um "dómine de palmeta" * que o instruiu nos rudimentos do solfejo. Com um manual de harmonia, roubando horas ao estudo da teologia e ajudando-se de uma "plebéia guitarra" * começou sua andadura como músico, compondo motetes, vilancicos, pastorelas de Natal...

Salve Regina, assinada num 26 de maio de 1857 é a obra mais antiga de Montes conservada no Seminário de Lugo
Foto: Fernando G. Jácome

Manuel García Gil, professor e vice-reitor do Seminário, animou a Montes, no ano 1853, a formar um coro de seminaristas para enfeitar com música os cultos a María no mês de maio, na Capla dos Olhos Grandes da Catedral. Fez-se nesse ano, e repetiu-se a experiência em anos seguintes.

Com 23 anos abandonou o Seminário e voltou à casa materna, situada já no número 23 da Praça de Santo Domingo, onde viverá o resto de seus dias. Empregou-se como pianista de uma sociedade recreativa de recente formação, o Círculo das Artes, onde tocou o piano para deleite dos sócios. Neste emprego coincidiu com uma das figuras importantes da música lucense, Isidoro Blanco, pianista e organista na catedral. No ano 1865 abandonou o cargo, a petição de alguns sócios descontentes com o tipo de música que Montes oferecia nos saraus da sociedade. Deixou o posto, e terão de passar quinze anos até voltar a exercer como pianista em outra sociedade recreativa, o Casino de Caballeros, onde trabalhará desde 1880 até 1893.

Em 1876 a prefeitura de Lugo encarregou-lhe a Montes a formação de uma banda municipal. Como director cobrará 1.250 pts ao ano. Em outubro desse ano, a banda debutó baixo a batuta do maestro, com a sinfonía de Il Pirata de Bellini. Além da banda municipal, dirigiu também a Orquestra do Teatro Municipal. Em agosto de 1883 Montes deixou a direcção da banda pela situação de desleixo por parte das autoridades da câmara municipal, facto que já tinham denunciado os músicos.

Banda municipal de música com João Montes

Outro facto destacado de Montes nessa época é a oposição ao cargo de organista segundo da Catedral. Ao conseguir o posto em 1878, a catedral passou a contar com Isidoro Blanco como organista primeiro e Montes como organista segundo.

Em setembro desse ano formou-se uma Estudiantina para pôr música festiva nas celebrações do S. Froilão. Os músicos da estudiantina (40 moços cantores acompanhados de guitarras, violins, bandurras, frautas e percussões várias) percorreram as ruas do centro da cidade no dia 4 de outubro. A visita do Orfeón Coruñés dirigido por Pascual Veiga à cidade nesse S. Froilão favoreceu que os jovens da Estudiantina visitassem a cidade da Crunha tempo depois, estabelecendo um vínculo com essa formação musical.

Estudiantina lucense
Foto do arquivo de Carlos Latorre Díaz

A Estudiantina dissolveu-se no ano 1879, deixando a semente para a criação de um orfeão. Esta experiência musical favoreceu as circunstâncias que permitiram a Montes fundar nesse momento o Orfeón Lucense, com o que conseguirá grandes sucessos nos anos seguintes, como o prêmio obtido no Certamen Musical de Ferrol, convocado para a inauguração do Dique de la Campana.


Foto: "Xan Montes. O músico esquencido"

Nos anos seguintes o Orfeão diminuiu sua actividade de ensaios e actuações, de jeito que a meados dos 80 está quase desaparecido. Montes, não obstante, mantinha sua intensa actividade musical dando concertos com o "Sexteto Montes", um agrupamento de câmara que dirigia ele mesmo, e com a que trazia aos lucenses os meles da música erudita da época.

No ano 1887 Montes deu um novo impulso à música da cidade fundando o Orfeón Gallego, contando com 50 vozes masculinas. Com este novo orfeão também escreverá páginas de glória, com os prêmios de Santander e Bilbao. Como director deste agrupamento seguirá produzindo música coral, como baladas, moinheiras, motetes e fazendo diversos arranjos até o fim de seus dias.

Foi também em 1887 quando recebeu pelo seu Te Deum o primeiro dos reconhecimentos como compositor, ao conseguir o segundo accessit no certame de composição celebrado no Escorial com motivo do XV centenário da conversión de Sto. Agostinho. A este prêmio seguirão outros muitos, na Galízia e fora dela, que colocarão a Montes como um dos principais compositores do país e do estado espanhol durante o século XIX, tanto no campo da música religiosa como no da música popular. O crítico musical Ramón Arana, no panegírico escrito à morte de Montes em junho de 1899 escrevia no jornal "El Regional": "Não podemos agora, baixo a tremenda impressão recebida, valorar com justiça os inquestionáveis méritos de quem superou a Pacheco no género religioso e a Marcial do Adalid, no popular"

Montes na portada de "La ilustración Musical Hispano Americana, nº 182 (1895)

Como compositor iniciou nesses anos um intenso labor, se apresentando a diversos certames musicais e conseguindo neles prêmios como os que levou pela Alborada galega para banda (Vigo, 1888), pela Sonata descritiva galega para cuarteto de arco, Balada galega para canto e piano e Prece à Virgem (A Crunha, 1890), pelo Passo-duplo sobre ares populares de Galiza para banda e Nocturno para orfeón (Vigo, 1891), ou o triplete conseguido com uma Romanza para canto e piano, um Passo-duplo para banda e uma Barcarola para orfeão no certame de León (1892), ano também do prêmio à Fantasía sobre ares populares galegos para grande orquestra no certame da Habana (1892). Além destes prêmios, também são destacáveis o segundo accessit de Valencia (1893) pela Missa sobre os hinos Eucarsíticos, ou o prêmio de Santiago por seu Missa in honorem Sancti Iacobi Apostoli (1897).

Na Catedral de Lugo, após a destituição de Domingo Peña como mestre de capela e do ínterim em que ocupa o cargo Márquez como interino foi nomeado Montes, também de jeito provisórioa, para exercer a função de maestro de capla. Nesse posto permanecerá até que em 1894, por oposição, ocupou o mestrado Octavio Torres.

Na madrugada do 24 de junho de 1899, depois de deitar-se indisposto e com uma forte dor de cabeça, morreu João Montes na sua casa de Santo Domingo. A cidade inteira ficou conmocionada, e a Galízia também assistiu com pasmo à notícia do faleciminto do querido e respeitado maestro. Inúmeras são as mostras de luto que recebe a família e as sociedades lucenses nos dias seguintes ao deceso. Procedente de Liga Galega, de Santiago de Compostela, com data de 25 de junho de 1899 chegou uma carta impulsionando a ideia de construir um monumento "à memória do que foi um verdadeiro génio da música e do canto popular da Galiza e no céu da divina arte, uma estrela semelhante em magnitude a Rosalía de Castro na esfera da poesia regional" A carta ia assinada pólo presidente e secretário da Liga Galega de Santiago, Salvador Cabeça León e Alfredo Brañas, respectivamente.

* Com essas palavras conta-o Indalecio Varela Lenzano, aluno de Montes, quem num ano após a morte do maestro contrairia casal com a sobrinha deste, Assunção Montes.

Apêndices

Em base a informações obtidas através da consulta de imprensa histórica oferecemos estes apontamentos que complementam o conheciminto que tenemos de Montes a partir das publicações de Varela de Vega.

1887. Montes em Paris

Assim viu Montes a torre Eiffel em Paris em 1887. A foto (de wikipedia) corresponde ao estado de obra (levantamento do pilar 3) o 18 de julho desse ano.

A começos de junho de 1887 Ángel Montes, sobrinho de J. Montes, foi mordido na rua de San Roque de Lugo por um cão suspeito de ser raivoso. Ante a possibilidade de desenvolver Ángel a terrível doença saíram para Paris o 18 de junho tio e sobrinho, com destino à clínica Pasteur, pioneira em Europa no tratamento contra a raiva.

Já no verão do ano anterior a Deputação de Lugo tinha subsidiado as despesas de viagem a Jesús Rodríquez López, médico lucense e amigo de Montes, para acompanhar em sua viagem a Paris a uma jovem lucense que também, ao ser mordida por um cão raivoso, teve necessidade de ser atendida em dita clínica. Jesús Rodríguez López além de médico era escritor, e foi o autor da letra da famosa moinheira de Montes "O bico".

Saíram, pois, com destino à capital francesa, de onde voltaram a Lugo o 8 de julho com Ángel totalmente restabelecido. Pode-se supor que nesses dias de estadia em Paris Montes terá tido a oportunidade de se assomar às obras da incipiente Torre Eiffel, cuja primeira pedra se tinha posto o 28 de janeiro desse mesmo ano. Os trabalhos de alicerçamento da torre foram concluídos o 30 de julho, quando ficaram prontos os quatro pilares que teriam de suportar a espantosa torre, assim que a aparência da obra que Montes poderia ter visto seria muito similar à da foto.

Também não seria desatinado -já que nada sabemos desta viagem através do biógrafo de Montes, Varela de Vega- pensar que Montes teria aproveitado a visita para mergulhar-se no mundo musical parisino de 1887 (ano em que esse grupo de músicos que assinaram o ocaso do romantismo foram chamados "impresionistas"), conhecer de primeira mão a música de Debussy, de Satie ou de Faure, assistir à ópera... ou quiçá conhecer pessoalmente a Laurent de Rillé, referente da música orfeonística.

1888. Os primeiros passos do Orfeón Gallego, e "Adiós", a melodia de Schubert que não era de Schubert.

A meados de março de 1888 a imprensa local anuncia a nova de que, baixo o nome de Orfeón Gallego, constitui-se uma nova massa coral em Lugo baixo a direção do "laureado maestro compositor" D. J. Montes. O coro conta nesse seu início com 34 jovens membros que ensaiam um "Miserere" para estrear na seguinte Quarta-feira santa na cidade.

Depois desta primeira intervenção o novo orfeão põe-se mãos à obra para presentar-se em público no Teatro de Lugo, talvez no mês de junho. A imprensa comenta que se ouve ponderar muitíssimo uma belíssima melodia de Schubert arranjada para vozes sós polo "inteligente director", e também fazem-se elogios da canção galega "Que ten o mozo?", de Pinheiro, que cantara o passado ano em Madri o orfeão El Eco. Na velada também participará o sexteto de Montes.

Será a final no sábado 7 de julho que o orfeão revela ao público lucense o fruto dos ensaios desta nascente formação. No repertório está anunciada uma "Barcarola" a vozes sós de Montes, "Aux bords du Rhim" de Kunck, "Adiós" de Schubert e "Que ten o mozo?" de Pinheiro, ademais de várias intervenções instrumentais do Sexteto de Montes.

Programa da velada em "El Regional", 7 de julho de 1888

No dia seguinte a imprensa conta que o concerto não foi tão concorrido como estava acostumado o teatro a ver em ocasiões anteriores, com o Orfeón lucense, porém os números anunciados foram executados com perfeição. Gostaram muito a "Barcarola" e "Aux bords du Rhim" mas a delicada melodia de Schubert foi magistralmente interpretada e com tal afinação que houve um momento em que duvidou o jornalista autor da crônica se a voz dos tenores procediam dum coro ou apenas dum consumado artista. Também "Que ten o mozo" gostou muito. Todas foram mui aplaudidas, mas o público pediu a repetição da duas últimas.

Adieu, de François Schubert

Por certo, que a tal melodia de Schubert não é deste autor, senão de August Heinrich von Weyrauch (1788 - 1865), publicada polo autor em 1824, em alemão, como "Nach Osten". Uma posterior versão francesa publicada em Paris perto do ano 1835 baixo o título "Adieu!" de F. Schubert atribui esta melodia ao compositor austríaco, e o lio é ainda maio quando Richault volve publicar a obra em 1844 e traduz F. Schubert como François Shubert, o que passa a falsa autoria a François Schubert (1808 - 1878) e a confusão faz esquecer ao bom August, autor da melodia que comoveu a Montes.

1890. O Certame Musical de a Crunha e a "Plegaria a la Virgen"

No ano 1890, com motivo da celebração das festas da padroeira da cidade, a Virgem do Rosário, o Orfeão Corunhês nº 4 que dirigia e presidia Pascual Veiga decidiu organizar um certame musical de composição com o júri formado em Paris e presidido polo eminente compositor Laurent de Rillé. Montes apresentou-se a dito certame com três obras: uma Sonata para quarteto de cordas, uma pregária para orfeão dedicada à Virgem do Rosário, e uma Balada galega para canto e piano.

As ligeiras andorinhas em Edição de Canuto Berea.

Foto de Fernando G. Jácome

A Pregária à Virgem do Rosário “El piélago del mundo” enviada por Montes chegou a Crunha a meados do mês de julho, e a imprensa local lucense dá notícia de que «en la secretaría del orfeón Coruñés nº 4 se han recibido diez composiciones, quedando registradas co los números 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40 y 41 respectivamente, y que contienen los siguientes lemas: [...]» Isto da uma ideia de que a concorrência de competidores foi avondosa. A pregária de Montes vai presentada com o lema “Ora pro nobis virgo sacratissimi Rosarii” O bispo Aguirre foi o doador do prémio à Pregária, como já anunciara a imprensa no mês de abril: «los premios recibidos hasta la fecha para el Certamen musical organizado por el Orfeón Coruñés nº 4 son los siguientes: un hermoso tríptico del Ilustrísimo señor Obispo de Lugo. Una rica pluma de oro del Ilustrísimo señor don Eduardo Vicenti [... etc]»

Plegaria a la Virgen. Portada da edição de Canuto Berea.

Foto de Fernando G. Jácome

O júri outorga às três obras presentadas por Montes os primeiros prémios nas suas respectivas modalidades. No 27 de agosto sai na prensa local (EL Lucense) o veredito do certame emitido desde Paris, no que dá a relação dos lemas das obras premiadas, entre eles uma pregária com lema “Ora pro nobis virgo sacratissimi Rosarii”. Mas é no 30 de agosto quando o público de Lugo pode ler a notícia dos prémios conseguidos polo nosso paisano: «Tenemos una vivísima satisfacción, un verdadero y noble orgullo, al participar a nuestros lectores una noticia que acaba de comunicarnos el telégrafo. Juan Montes, el modesto e inteligente músico que tantos días de gloria lleva proporcionado a Lugo; el primer compositor gallego que acometió con feliz éxito el difícil empeño de dar a la música regional, al melancólico canto de nuestros campesinos, la forma clásica que Haydn y Mozart han idealizado; el que, en el campo del arte, cuenta tantas victorias como veces ha luchado, acaba de obtener un triunfo más, pero importantísimo, TRIPLE.»

De feito, a “Sonata descriptiva galega” para quarteto fez que o público amante da boa música dos quartetos de Haydn e Mozart puidese escutar um alalá tocado com os instrumentos de arco e a balada “As ligeiras andorinhas” fez que os amantes do lied de Shubert pudessem escutar uma música igual de sublime cantada em galego.

O eco da imprensa corunhesa, que recolhe o jornal “El Lucense” dá a notícia de que Montes recolheu os três primeiros prémios entre os aplausos do público corunhês. Na cidade de Lugo as fachadas dos prédios que ocupavam o Casino e o Círculo das artes luziram lindas iluminações, podendo-se ler, nesta última sociedade, as iniciais J M escritas com lâmpadas de cristal.

Sobre a pregária “El piélago del mundo", além do publicado por Varela de Vega e López Calo, podemos dizer:

A partir dos manuscritos conservados na biblioteca do Seminário diocesano de Lugo, arquivo da S.I.C.B. de Lugo e da edição impressa em Canuto Berea podem-se inferir três versões distintas da Pregária:

  • A original, apresentada a concurso com o devandito lema dedicado à Virgem do Rosário, é para 4 vozes de homem, dous tenores e dous baixos, a cappella. No texto faz-se menção à Virgem nos compassos 27-34: ¡Oh, Virgen del Rosário, en tan revuelto mar del alma en el santuario elévase tu altar!”
  • Outra versão é a conservada nas quarto particellas para orfeão (dous de tenor, uma de barítono e outra de baixo) na catedral, quem vem titulada como “Plegaria de concierto”. Também não leva acompanhamento de órgão, e tem umas pequenas diferenças no texto com respeito à partitura enviada a concurso. Por exemplo, nesses compassos 27-34 diz: ¡Oh, Virgen bondadosa, en tan revuelto mar el alma siempre ansiosa te invoca sin cesar” Já nos compassos 5-8 o texto muda do “un denso caos profundo le cubre sin cesar” a “un denso caos profundo de sombras cubre el mar” E para rematar, na parte final da pregária, os versos “Los héroes de Lepanto en ti su triunfo ven. ¡Cubridnos con  tu manto, protégenos también!” passam a ser “tu eterna protección, atiéndelo, Señora, acoge su oración”
  • Uma terceira versão é a publicada por Canuto Berea com o mesmo texto da “Plegaria de concierto” e com acompanhamento de órgão. Conserva-se, ademais da versão impressa, a manuscrita incompleta no Seminário (falta-lhe a última página). Indica que se pode executar obra com orfeão ou bem a uma voz só com acompanhamento de órgão. Nesta partitura acrescenta Montes a marca de metrónomo dando valor à semimínima = 54, ademais da indicação inicial de legatissimo. A dedicatória que exibe já não é a da versão original “À Santíssima Virgem do Rosário” senão que passa a ser “Ao doador do prémio, o Il.mo. Sr. D. Frei Gregório Maria Aguirre, bispo de Lugo."

     

Portadas dos manuscritos das Plegarias nas diferentes versões referidas

Foto de Fernando G. Jácome

1892. O feliz ano da Negra sombra

1892 foi um ano cheio de fastos em comemoração do quarto centenário da descoberta de América por Cristóbal Colón. Para Montes supôs um ano de especial fortuna no âmbito do musical, como compositor e como director de seu Orfeón Gallego.

Com motivo do centenário, em León prepara-se uma "Exposição Regional Leonesa" a celebrar entre os dias 20 de setembro e 15 de novembro de 1892. Para a inauguração da exposição estrear-se-á um hino que será seleccionado mediante concurso. Publicam-se as bases do concurso de composição do hino, que tem de ser para orfeão a duplo coro sobre um texto que começa com o medonho verso "Saí das tumbas". As bases, publicadas pela imprensa de Lugo no mês de abril, indicam que o hino tem de ser apresentado ao júri antes do 1º de maio. Montes compõe esse hino, e no 26 desse mesmo mês chega a Lugo por telégrafo a notícia de que o hino apresentado por ele, tinha recebido o primeiro prêmio.

Nesses dias, mais ou menos a meados de junho, publicam-se também as bases de uns certames musicais de composição e de interpretação com motivo de dita "Exposição Regional Leonesa". Montes participa como compositor optando ao prêmio à melhor "Barcarola para orfeón", à melhor "Romanza para tiple ou tenor e piano", e ao melhor "Pasodoble para banda".

Manuscrito da primeira página do Passodoble premiado em León

Arquivo do Seminário de Lugo. Foto de Fernando G. Jácome

Entre tanto, desde o outro lado do Atlântico, na Ilha de Cuba, as associações culturais estão a trabalhar a cotio para comemorar esses 400 anos da descoberta de América. Um grupo de pessoas do Centro Galego da Habana, a Sociedade "Airiños d'a Miña Terra", une-se à celebração da efeméride convocando um concurso de composição musical que dotará com Medalha de Ouro e 100 pesos de ouro à melhor composição para orquestra sobre ares populares galegos. As bases são publicadas na imprensa local o 19 de julho de 1892. Montes participa e envia a La Habana uma Fantasía para grande orquestra sobre ares populares galegos. A obra resultou ganhadora do primeiro prêmio e o veredicto do certamen é dado a conhecer em La Habana o 10 de setembro de 1893. A notícia chega a Lugo e é publicada na imprensa com escasso ardor, num 2 de outubro de 1893. A partitura para orquestra está hoje perdida, no entanto, conserva-se a versão que Montes fixo para Banda da mesma obra, publicada na Crunha por Canuto Berea, e cujo original manuscrito dorme no arquivo do Seminário Diocesano de Lugo.

Manuscrito da primeira página da Fantasia sobre aires galegos, premiada em La Habana

Arquivo do Seminário de Lugo. Foto de Fernando G. Jácome

A meados de agosto recebe-se em Lugo a notícia de que no certame de composição de Pontevedra, no que Montes participava, nosso paisano tinha recebido os dois prêmios em disputa, com sendas balidas para orfeão: "Doce sono" e "Negra sombra".

Nesses mesmos dias, o Orfeón Gallego está mergulhado na preparação das competições corais de Santander e Bilbao, e preparando a "toda máquina", tanto as obras obrigadas dos certames (Os hebreus cativos, para o de Santander, e o mastodonte de 42 páginas A caça do corsário para o de Bilbao), como as obras de livre eleição.

La caza del corsario, de Cleto Zavala

Obra obrigada no certame de orfeões celebrado em Bilbao nos dias 27 e 28 de agosto de 1892

Sobre 17 de julho o orfeão recebe a obra obrigada de Bilbao e fica surpreendido pela dificuldade e extensão desta. O frenético trabalho com o coro e como compositor não impede, mais bem parece que provoca, uma paradazinha para tomar um relaxe e procurar nova inspiração. Entre o 26 de julho e o 3 de agosto, Montes faz a sua visita anual ao balneário de Céltigos, onde tomará as águas e os banhos, e encontrará o ambiente e inspiração necessários para a composição musical. De Céltigos traz na pasta a referida "Romanza para tiple ou tenor e piano" (Dorme a gota tremulante) datada no 29 de julho de 1892.

Volta a Lugo Montes e retoma os ensaios com o orfeão, e já no 12 de agosto um jornal local anuncia que o coro ultimou a preparação da obra A caça do corsário. Isto nos dá uma ideia da capacidade de trabalho do Orfeón Gallego.

Dias depois saem os coristas de viagem no comboio para Palencia. Participa o Orfeón, dirigido por Montes, nos concursos de orfeões celebrados em Santander e Bilbao, e consegue em Santander um segundo prêmio que sabe a primeiro, e em Bilbao três prêmios (uma coroa e duas palmas). A cidade de Lugo parece loqujar de alegria e orgulho por ter tão ilustre filho e tão bom coro.

No final de outubro chega a notícia de que Montes se erige como ganhador do certame de composição de León dantes referido, nas modalidades de "Barcarola para orfeón", "Romanza para quanto e piano" e "Pasodoble para banda". Com estes triunfos completa um póker de ases em León, num ano que veria a sua consagração definitiva como compositor e como director do Orfeón Galego.

2017. No 125 aniversário da Negra sombra

Fernando Gómez Jácome, director de Solo Voces.

No ano 2017, quando a Negra sombra fazia os seus 125 anos, a redondeza da cifra parecia oferecer uma boa ocasião para voltar a desempoeirar a partitura e fazer um pouco de festa em Lugo, nesta cidade nossa que tem a honra de ser a pátria natal de Xoán Montes.

Para isso, desde o Grupo Vocal "Solo Voces" que dirijo, e como parte da actividade que vimos desenvolvendo desde faz quase 20 anos a favor do estudo e a difussão da figura de Montes, decidimos organizar um acto musical de carácter "coral" -no sentido de colectivo- sobre a obra mais egrégia do maestro Montes, aproveitando o seu aniversário.

Contando com a participação de outros músicos amadores e profissionais da cidade, decidimos fazer algo que achamos que nunca antes se tinha feito: interpretar, num mesmo concerto, as três versões da Negra sombra que, saídas da pena de Montes, ainda se conservam: a versão para canto e piano, a versão para orfeão, e a versão para banda, esta última arranjada pelo próprio autor a partir da obra original (hoje perdida) escrita para grande orquestra, e da que a Negra sombra constitui o movimento central, o segundo dos três que conformam a Fantasía sobre ares populares galegos premiada na Habana naquele 1892.

Estes músicos aficionados e profissionais com os que tivemos a honra de contar no concerto foram: Esperanza Iglesias, soprano, Aurelio Chao, piano, o Orfeón "Xoán Montes" e David Robles Pacho, piano, dirigidos por Elisabeth Filgueira Gesteira e a Banda Filarmónica de Lugo dirigida por Iván Martínez Sabio. O programa do concerto esteve formado integralmente por obras de Montes, e nele pudemos escutar, ao lado das três versões referidas da Negra sombra, a estréia da Romanza Dorme a gota trémula premiada em León também em 1892 e as 6 Baladas galegas (a cargo de Esperança Iglesias, Solo Voces e Aurelio Chao), a estréia do hino À venatória para orfeón (a cargo do Orfeón "Xoán Montes" e David Robles), e fragmentos da Missa in honorem Sancti Iacobi Apostoli a cargo de Solo Voces e Aurelio Chao, dirigidos por quem isto escreve, Fernando Gómez Jácome.

A partir do original manuscrito e da publicação feita por Canuto Berea da Fantasía sobre ares populares galegos, conservadas no arquivo do Seminário Diocesano de Lugo, Iván Martínez Sabio encarregou-se de adaptar a partitura para ser tocada no que é hoje em dia uma banda, que não se corresponde estritamente com o que era há 125 anos.

O busto de Montes en Lugo

Na estupenda obra biográfica “JUAN MONTES. Um músico gallego” escrita por Juan Bautista Varela de Vega com motivo do sesquicentenário de J. Montes, e editada pela Diputación da Coruña (1990), bem como no livro do mesmo autor “Xoán Montes. O músico de Lugo” que editou o concelho de Lugo em 1999, centenário da morte do músico, e na obra “El músico Juan Montes y los poetas gallegos” (2001) também de Varela de Vega, o biógrafo comete o erro de confundir o lugar da primeira e segunda colocação do busto de Montes em Santo Domingo. Esse erro é repetido na obra publicada por El Progresso “FILLOS DE LUGO. Xoán Montes” em 2002, com textos de Teresa Lastra Magadán.

Convencido do erro deste dado, Fernando G. Jácome, director de Solo Voces, através da leitura da imprensa local da época e documentos do arquivo pessoal de Juan Soto pode reconstruir a cronología do busto mais ou menos assim:

Trás a morte de Montes a imprensa de Lugo (El Regional, 27 de junho de 1899) aponta a ideia de recordar a Montes bem com um Mausoléu, uma estátua, lápides comemorativas e o nome duma rua. Com data de 25 de junho sai de Santiago uma carta da Liga Gallega de Santiago, assinada por Alfredo Brañas como secretário e polo presidente, Salvador Cabeza León, que é recebida em Lugo dias depois, formulando a ideia de erigir um monumento a Montes em Lugo. No 28 de junho o Círculo das Artes celebra uma junta extraordinária na que se dá leitura à carta recebida da Liga gallega que reflete o pensamento do acordo que fora tomado no día 24, pelo que os sócios do Círculo comissionaram o presidente, vice-presidente, secretario e diretor artístico da Seção Lírico Dramática, para que propusessem o tipo de obra a fazer com a que perpetuar a memória de Montes:

Detalles da base do monumento.

Fotografias de Manuel Buján Peón

“Entende ademais, a Junta que o nome dum artista tão esclarecido, não pode ser esquecido em decorrência dos tempos; que sua memória deve se manter constantemente viva por médio de algo externo que a perpetue e que o Círculo das Artes de Lugo está obrigado a tomar em tal sentido a iniciativa, e, ao efeito toma o acorde de que os citados senhores presidente, vice-presidente e secretário, em união do Sr. dom Francisco Rodríguez Besteiro, director artístico na actualidade da secção Lírico Dramática, estudem e proponham em prazo breve o modo de dar forma às aspirações da Junta tendo em conta que o pensamento desta é o de realizar uma obra que não revista exclusivamente carácter local, já que a perda irreparável do maestro insigne afecta não somente ao povo lucense onde viu a luz da vida, viveu e produziu suas mais formosas composições, senão aos galegos todos, que na Galiza procuram na música de Montes regozijo e entretenimento para o espirítu, e fora da Galiza consolo às tribulações que ocasiona a nostalgia da pátria.”

Pouco depois começam a realizar-se atos no Círculo para arrecadar fundos para levar a cabo estas ideias.

A morte de Alfredo Brañas, em 1900, como membro fundamental da Liga galega supõe em certo modo um arrefecimento do pulo inicial. Entre 1900 e 1902 estão-se a ativar uma e outra vez subscrições para arrumar quartos com que erigir um monumento.

Boletín de suscrição. Jesús Rodríguez López, o médico autor da letra de la moinheira "O bico" aporta 5 pts.

Foto do arquivo de Juan Soto

Entanto o busto vai sendo projetado, na cidade vai-se pensando onde colocá-lo. Num artigo de Jesús Rodríguez López, o médico, publicado no jornal “El Regional” em fevereiro de 1900 apontam-se várias ideias sobre a melhor ubicação para duas das estátuas que estavan na altura a ser projetadas para enfeitar as praças de Lugo: uma civil, a de Montes, e outra de caráter religioso, dedicada a “O salvador do mundo”. Jesús Rodríguez aponta como lugar idóneo para o busto de Montes a confluência das ruas Castelar e Manuel Becerra (hoje Rua Teatro e Rua do Progreso, respectivamente) Para a estátua ao Salvador indica como lugar mais ajeitado o centro da alameda da Praça Maior. Outros espaços que aponta como possíveis para alojar uns monumentos de essas características seriam em opinião deste médico os jardins de Palácio Episcopal e os jardins de Bispo Izquierdo.

Amor Meilán dias depois contesta com outro artigo no mesmo meio pondo reparos a colocar estátua nenhuma na Praça Maior, pensando na iminente remodelação deste espaço, que levaria consigo a desaparição da antiga fonte dos leões. Ainda assim está de acordo com que o busto de Montes deve ser colocado num lugar destacado: “...O de Montes é outra coisa; essa sim que por seu carácter profano e exclusivamente artístico, tem seu lugar marcado no ponto mais visível e de melhores perspectivas

Meilán aduz que seria um erro colocar aí o busto para -quiçá meses depois- ter que desmontá-lo para fazer obras na praça: “…e não acho que seja coisa de ter que estar com a efígie do bondoso maestro, de um lado para outro, à cada reforma que a praça Maior sofrer

Em fevereiro de 1902 saca-se a concurso o desenho do monumento, que há ser busto apenas, e presentam-se 7 propostas. Em outubro de 1902 exibem-se para serem valoradas.

Foto do arquivo de Juan Soto

Elege-se a do escultor Eugenio Duque, e em junho de 1903 o artista já tem terminado o desenho do busto, que será fundido em Barcelona. Em outubro desse ano é recebido em Lugo, num caixão que pesa 120 kg.

Artigo de El Correo Gallego onde se descreve o projeto do busto na oficina do escultor Eugenio Duque, antes da sua fundição. Maio de 1903
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Modelo em gesso do busto de Montes. Muséu diocensano de Lugo. (Fotos de Fernando G. Jácome)

Em 1904 é colocado o busto e monumento na Praça de santo Domingo, nesse cruzamento das duas ruas que apontava Jesús Rodríguez, fronte à casa de Correios. As obras são supervisionadas por Eugenio Duque, e levadas a cabo entre os dias 12 e 14 de janeiro. Rematada a obra, tapa-se com um lenço branco, que luzirá por 2 meses completos. Faz-se uma nova subscrição para fazer um lindo jardim e calçadas que rodeiem o monumento.

Plano de Lugo datado entre 1903 e 1914

Detalhe do centro da cidade. Santo Domingo com o monumento e os jardins na confluência de Manuel Becerra e Castelar

Arquivo histórico provincial de Lugo

A inauguração do busto espera a serem resolvidos vários assuntos. Por exemplo, numa sessão do concelho celebrada no 25 de janeiro de 1904 discute-se uma petição dos vizinhos de Sto. Domingo: "pedem que o jardim que tem de rodear o busto do mestre Montes se reduza de maneira que permita se destacar melhor a artística obra e não ocupe quase toda a parte superior da praça"

O busto de Montes na sua primeira colocação (entre 1904 e 1915) "...olhando ao escudo da casa de correios..."

No jornal do 16 de fevereiro de 1904 o jornalista “Ramiro” de “El Regional” escreve escandalizado por não se ter rematado a obra e não ser inaugurado o monumento que já leva um mês com o farrapo sujo na cabeça (o lenço branco) e diz: "uma coisa é o que deva se fazer e outra o que fá-se-á. [...] por isso, sem dúvida, não se colocou no centro da praça em que se levantou; por isso, sem dúvida, se lhe colocou olhando ao escudo da casa de correios, como se de propósito se procurasse a pior orientação e a menor visibilidade..."

Afinal, com a visita de Alfonso XIII a Lugo em 15 de março desse ano botaram areia nas ruas de S. Marcos, Sto. Domingo e Rainha e tiraram o farrapo da cabeça do pobre Montes, sem inauguração nenhuma. É um pouco triste.

Anos depois, com o aparecimento dos carros a motor modificou-se a Praça. Em 1906 constrói-se a Praça de Abastos (todo o mercado fazia-se na zona baixa da praça em tempos de Montes, polo que teria sido um estorvo colocar aí o monumento inicialmente). Em 1915 planeia-se a remodelação, construção de calçadas e um passeio central que foi chamado polo engenho popular "a frigideira" porque era estreito e longo na zona alta da praça e redondinho na zona baixa, onde se vê na foto o busto de Montes.

A "frigideira" com o monumento ao fundo, diante do Palacete de Velarde

Diante do Palacete de Velarde

Entanto se remodela a praça, discute-se onde se há levar o busto: uns propõem levá-lo ao jardim de Bispo Izquierdo (Campo Castelo) e outros (o prefeito) colocá-lo no extremo do passeio central. Desde a colocação da estátua de Montes em Sto. Domingo o busto foi lugar de realização de homenagens e oferendas de muitos coros de toda Galiza, de toda Espanha que não quiseram deixar cair no esquecimento a memória de Montes.

1916. O busto de Montes na sua segunda colocação. Rondalha Airinhos da Terra de Ferrol rende homenagem a Montes

Anos depois o busto foi parar aos jardins de S. Roque. O inadequado do lugar para continuar com a tradição de homenagens a Montes -e há inúmeras resenhas de homenagens musicais e florais- bem o sabe o Orfeón “Xoán Montes” que todos os anos canta ao maestro polo seu aniversário.

No 1940 escrevia no jornal local El Progreso o Sr. Trapacero (Trapero Pardo), a jeito de brincadeira, algo que nos dá ideia de mais ou menos quando se começou a pensar em exilar a Montes:

"EL Progreso". 5 de maio de 1940
click na imagem para ler o artigo

 

Busto de Montes na sua terceira situação, nos jardins de S. Roque

Arquivo histórico provincial de Lugo

Em meados dos anos 70, no ocaso do franquismo, apareceu um artigo de opinião no jornal local, El Progreso, assinado por "un clásico lugués" (José Barreiro Varela) no que se lançava a ideia de transladar o busto do músico a uma nova localização. Começando por reconhecer que a localização nos jardins de S. Roque era totalmente inadequada, segundo sempre foi opinião manifesta dos amantes da música pela incompatibilidade dessa localização com qualquer tentativa de seguir com a tradição de render homenagens musicais à figura de Montes, José Barreiro propõe a Praça do Museu como lugar mais idóneo para uma nova e definitiva localização do busto. Apoiando a argumentação a favor deste lugar indica (esquecendo-se ou ignorando que o próprio Montes nasceu numa casa muito próxima a esta praça) que uma tia de Montes, Josefa Capón, viveu e morreu nessa mesma rua. Josefa, casada com Pedro Latorre, foi mãe de dois músicos importantes e unidos a Montes: Baldomero Latorre (em vida de Montes director da Banda Municipal de Lugo, e posteriormente da de Monforte) e Juan Latorre (director da banda de Viveiro), tios de Vicente, outro estupendo músico que viveu durante anos em frente a essa praça. Vicente fez doação de seu arquivo musical que continha obras tão importantes como o manuscrito da "Negra sombra" para orfeão que se guarda hoje no Museu Provincial de Lugo. Também foi o criador e director do primeiro Orfeón Xan Montes, o formado no 1949, não o actual Orfeón "Xoán Montes" fundado por Enrique Alvarellos a começos dos anos 80 do passado século. Sem esquecer que também a Rua Nova foi berço do mais importante músico lucense depois de Montes: Gustavo Freire. Por isto e pelo favorável da ubicação para os actos musicais se propunha esta praça como solução ao "desterro" de Montes. O artigo ia acompanhado de uma fotomontagem ilustrando o formoso do resultado:

Fotomontagem publicada em "El Progreso"

Em 2011, numa das jornadas que Solo Voces dedicamos a Montes, comentou o nosso diretor Fernando a Antón Bao, daquela deputado de Cultura que ao passo que levava a estátua em questão ia sendo hora de colocá-la numa rotunda, no Ceao, por exemplo. Aí foi a primeira vez que se falou de que a estátua itinerante, ou a estátua centrífuga bem merecia estar no centro, onde lhe corresponde ao filho mais ilustre da cidade de Lugo.

Montes e os seus orfeóns na poesía do seu tempo

Não é um facto mui conhecido, na ainda escassamente conhecida biografia de J. Montes, que poetas ilustres como Pondal, Leiras Pulpeiro ou Aureliano J. Pereira, por citar alguns deles, escreveram poesias dedicadas ao nosso músico.



Descarga do arquivo en pdf do trabalho sobre
Montes na poesia do seu tempo

Além do uso que Montes, como compositor, fez da obra dos poetas do seu tempo como material sobre o que criar as suas obras: Rosalia de Castro para as baladas "Doce sono" e "Negra sombra", Aureliano Pereira para as baladas "Lonxe da terriña" e "O pensar do labrego", a cena coral "A sega", a moinheira "Maruxiña, se quixeres", o "Vals a la Venatoria”, Curros Enríquez para a balada "Unha noite na eira do trigo", Salvador Golpe Varela para a balada "As lixeiras anduriñas", Segismundo Rois na pregária "El piélago del mundo" e na mazurca "Delante de tu reja", Xesús Rodríguez López na moinheira "O bico", Isidoro Roso em "Una flor a María", etc... também os poetas da época de Montes se inspiraram na figura do célebre músico para as suas criações literárias.



Jesús Rodríguez López: poesia dedicada a Montes (frag.) para
ser cantada com a letra da moinheira "O bico"

Trabalhando como músico em diversos âmbitos, a figura de Montes pouco a pouco foi medrando e atingindo um maior reconhecimento tanto nas sua cidade natal, Lugo, como fora da cidade e mesmo da região galega. Desde o seu primeiro prêmio como compositor, logrado em 1887 polo seu “Te Deum” para coro e orquestra num certame de composição celebrado no Escorial (Madrid) Montes, que para os lucenses era o fundador e ex-diretor da banda municipal e diretor do afamado Orfeón Lucense que conseguira tão soado prêmio no certame de Ferrol começou a ser uma figura a cada passo mais e mais querida e admirada. No ano de 1888 criou o Orfeón Gallego, com o que obterá fama e a glória dos laureados com as suas participações nos certames de orfeões de Santander e Bilbao no 1892, que o projetaram também como uma figura musical de relevo em toda España. Ademais como compositor recebeu também em Vigo no 1888 sendos prêmios por uma Aborada e um "Pasodoble". Entre 1887 e 1892 já levava conseguidos uma dúzia de galardões como compositor, e dado à sua cidade de Lugo a oportunidade, com cada prêmio, de festejar com orgulho o seu filho.

Com o presente trabalho trato de reunir as poesias que inspirou a genial figura do compositor J. Montes Capón. Além dos exaustivos trabalhos de Juan Baustista Varela de Vega (q.e.p.d.) sobre a vida de Montes e a sua relação com os poetas, aos que fazemos ralação nesta página web, aporto alguns datos e obras que ele ignorou, ou que lhe passaram inadvertidas, como as décimas que compôs Alfredo Brañas e foram recitadas em Santiago na velada celebrada em novembro de 1899, à morte de Montes, e que permaneceram ocultas durante 50 anos até que foram publicadas num jornal de Santiago de Compostela, e que de tê-las conhecido o esforçado biógrafo de Montes de seguro estaria encantado de poder incluir no seu trabalho "El músico Juan Montes y los poetas gallegos".




Décimas de Alfredo Brañas escritas no 1899

Nessa publicação o autor oferece a versão do poema de Leiras Pulpeiro tirada de "Manuel Leiras Pulpeiro: Poesía galega completa" identificando-a como a mais antiga edição, que data -se não estou errado- de 1984, entanto eu aporto a edição publicada pola imprensa lucense com motivo do primeiro cabodano de montes, no 1900, e mais a imagem da página da revista "Céltiga" de fevereiro de 1932 onde é publicado o dito poema. Do mesmo jeito identifica como versão mais antiga do poema de Pondal "À memória de Jan Montes" a publicada pola Real Academia Galega no 1935 quando no presente trabalho aporto a versão também publicada na imprensa lucense no mês de outubro de 1899.




Poesia escrita en Mondonhedo por Leiras Pulpeiro no 1899, publicada no 1932 na revista "Céltiga"

Também, com ânimo de guardar fidelidade às fontes antigas, conservo o jeito que cada autor utilizou para verter em escritura o seu idioma galego, que na altura carecia de uma ortografia normalizada aceitada no nosso país. É de interesse comprovar como cada autor resolvia questões fonéticas retorcendo e deturpando a ortografia castelhana na que se baseavam para exprimir a sua língua galega. Neste aspecto apenas corrigi algum erro evidente.

Polo dito, sirva como complemento à obra de Bautista Varela de Vega.

Fernando G. Jácome

AUDIOS

Algumas obras e fragmentos gravados por Solo Voces no nosso Cd Grupo Vocal Sólo Voces - "Dous Séculos de Música Lucense"

02 - Juan Montes - Veni creator
03 - Juan Montes - Negra sombra
04 - Juan Montes - Un bico (Muiñeira para orfeón)
05 - Juan Montes - Misa de defuntos - Introito
06 - Juan Montes - Misa en honor do Apóstolo Santiago - Kyrie
07 - Juan Montes - Misa en honor do Apóstolo Santiago - Sanctus
08 - Juan Montes - Misa en honor do Apóstolo Santiago - Benedictus

Jornadas sobre JUAN MONTES

Entre os dias 25 e 29 de Abril de 2011, Solo Voces organizou uma conferência em torno da figura mais importante dos músicos galegos, o nosso compatriota João (Juan) Montes Capón.

Foram uns dias "para ouvir, ver e sentir o músico Lugo", motivados pelo esquecimento em que acreditamos que o autor está submergido injustamente, tanto seu trabalho quanto sua vida.

As sessões consistiram em: (baixar brochura em PDF)

  • Uma exposição, no refeitório do Museu Provincial, dos objetos relacionados Montes: suas partituras, documentos históricos, imagens e painéis explicativos sobre vários aspectos da vida e obra do mestre Montes.
  • Palestras em torno de sua vida, seu trabalho, sua época, o Lugo de final do século XIX, com a colaboração de Adolfo de Abel Vilela, Lois Seixo Castro e Xan Carballal.
  • Uma série de cinco concertos focada nas diversas áreas em que Montes desenvolveu sua música: as baladas, música para coro, música de orquestra, banda de sopros e, finalmente, a sinfônica coral. Tudo isso, com a colaboração da Deputação Provincial, o Museu Provincial, e da Câmara Municipal de Lugo - que prestaram instalações e financiaram o projeto -, com o empréstimo do material para a exposição do Seminário Diocesano, Museu da Catedral, Convento das Clarissas de Monforte e outros doadores privados, tais como Juan Soto, da Fundação TIC que gravou em vídeo todos os atos da semana, e da Paróquia sempre colaboradora de São Pedro, que deu seu templo para alguns concertos.

Os concertos e palestras seguiram o plano mostrado pelos dípticos correspondentes:

25 de abril: inauguração das jornadas por Antón Bao, na Sala dos Mosaicos do Museu Provincial, e concerto de Carmen Subrido (soprano) e Xoán Elías Castiñeira (piano) realizando as "Seis Baladas Galegas".

26 de abril: passeio didáticona rua com Adolfo de Abel Vilela pelos espaços da cidade mais importantes de Lugo na vida de Montes. Acompanhado por Solo Voces e Aurelio Chao, que ofereceram vários trabalhos corais e orfeonistas de Montes e outros.

27 de abril: Conferência Lois Seixo Castro sobre o Lugo do final do século XIX. Mais tarde, um concerto do quarteto "Saiva Nova" ofereceu obras para cordas de Montes, coreografadas por estudantes do CDAN de Lugo.

 

28 de abril: palestra de Xan Carballal sobre aspectos técnicos do trabalho de Montes, seguido por um concerto pela Banda Municipal de Lugo, com obras do autor para banda de sopros.

29 de abril: Concerto de encerramento Solo Voces acompanhado pela Orquestra clássica de Jove, dirigida por Xan Carballal, que ofereceu a "Missa in honorem Iacobi Apostoli"

Tanto os concertos como as palestras e a exposição foram um sucesso de público. Assim luzia o Refeitório do Museu Provincial antes da inauguração:

Os painéis informativos, depois de expostos naquela semana no Museu Provincial, foram expostos em diferentes centros de ensino, como o Conservatório "Xoán Montes", que leva o nome so maestro.

Como um lembrete para o público presente, elaboramos belos postais para dar aos assistentes, inspirados nas capas da obra impressa de Montes:

Aqui você pode ver alguns vídeos do dia de abertura, com Carmen Subrido e Xoán Elías Castiñeira, e o dia de encerramento com Solo Voces e Orquestra Clássica de Jove, dirigidos por Xan Carballal.

Baladas Galegas - O Pensar d'o labrego (Juan Montes)

Baladas Galegas - Unha noite n'a eira do trigo (Juan Montes)

Baladas Galegas - Doce Sono (Juan Montes)

Baladas Galegas - Lonxe da Terriña (Juan Montes)

Baladas Galegas - Negra Sombra (Juan Montes)

Baladas Galegas - As Lixeiras Anduriñas (Juan Montes)

Misa en Honor do Apóstolo Santiago (Juan Montes) - Kyrie

Misa en Honor do Apóstolo Santiago (Juan Montes) - Gloria

Misa en Honor do Apóstolo Santiago (Juan Montes) - Credo

Misa en Honor do Apóstolo Santiago (Juan Montes) - Sanctus e Benedictus

Misa en Honor do Apóstolo Santiago (Juan Montes) - Agnus Dei

publicacões

Xan Montes. O músico esquencido

INB. Xoán Montes

Ano 1978

Biografia

Juan Montes. Un músico gallego

Juan Bautista Varela de Vega

Deputación da Coruña

Ano 1990

 

Biografia

Xoán Montes. O músico de Lugo

Juan Bautista Varela de Vega
Patronato de Cultura do Excmo. Concello de Lugo

Ano 1999

Biografia

El músico Juan Montes y los poetas gallegos

Juan Bautista Varela de Vega

Ano 2001

Estudo da relação dos poetas galegos com o músico lucense

FILLOS DE LUGO. Xoán Montes

Teresa Lastra Magadán
El Progreso de Lugo, S.L.
Ano 2002

Breve Biografia baseada nas anteriormente publicadas

Historia do Orfeón lucense (Orfeón gallego) (1879 - 1909)

Juan Bautista Varela de Vega

Orfeón lucense

Ano 2008

 

História do Orfeón lucense e Orfeón Gallego

Juan Montes, seminarista de Lugo

Obras musicales

José López Calo
Deputación Provincial de Lugo

Ano 2001

Obras musicais da primeira etapa do músico, durante a sua estadia no seminário de Lugo.

Las obras musicales de Juan Montes

José López Calo
Xunta de Galicia. Consellería de Cultura

Ano 1991 - 2006

Edição das obras musicais de Montes

Vol. I. Seis baladas gallegas

Vol. II. Oficio y misa de difuntos

Vol. III. Misa en Honor del Apóstol Santiago

Vol. IV. Otras misas

Vol. V. Te Deum - Siete palabras

Vol.VI. Obras relixiosas varias

Vol. VII. Obras de inspiración popular. (I)

Vol. VIII. Obras de inspiración popular. (II)

Vol. IX. Obras de inspiración popular. (III)

Vol. X. Obras de inspiración popular. (IV)

Vol. XI. Obras de inspiración popular. (V) - Vésperas da Catedral - Vária (I)

Obras para piano (I)

Edición crítica de Joám Trilho

Dos acordes

Xunta de Galicia

Ano 2016

Obra pianística de Montes editada por Joám Trilho

Obras para piano (II)

Edición crítica de Joám Trilho

Dos acordes

Xunta de Galicia

Obras para piano a 4 e 6 mãos.

Edição crítica e transcrição de Joám Trilho

Clásicos galegos. Vol. I

Sons Galiza

Ano 1999

Orquestra de cámara de Xove e Grupo Vocal "Solo Voces"

Música de Pacheco, Santabaya, Bal y Gay (Concerto grosso) e J. Montes (Misa en Honor del Apóstol Santiago)

Clásicos galegos. Vol. II

Sons Galiza

Ano 2004

Orquestra Municipal de Xove

Música de Bay y Gay e J. Montes

Dous séculos de música lucense

Excma. Deputación Provincila de Lugo

Bonaerges

Ano 2010

Grupo Vocal Solo Voces, Orquestra Vigo 430, Aurelio Chao (piano), Irina Bunkova (soprano).

Música de autores lucenses: Pacheco, Pascula Veiga, Juan Montes, Gustavo Freire, Bal y Gay, García Julve, Moreno Fuentes...

Que bela te deu Deus!

Dos acordes
Excma. Deputación Provincila de Lugo

Ano 2014

"Seis baladas galegas" de J. Montes e "Oito canções sobre poemas de Rosalia" de Moreno Fuentes

Esperanza Iglesias Méndez, soprano

Aurelio Chao, piano

 

 

PARTITURAS

Oferecemos tres obras inéditas para voz e piano escritas em língua castelhana.

Consulte como adquiri-las.


sv183 Salve Regina   1857
sv213 En Belén hai moita festa   1857
sv184 Quem terra, pontus, sidera   1857
sv185 Veni creator spiritus   1860
sv234 Ai, Maruxiña (O Bico) Muiñeira TTBB   Letra de Jesús Rodríguez López (1859 - 1917)  
sv457 Adiós August Heinrich von Weyrauch   (1788 - 1865)   arranjo para orfeão de J. Montes 1888 ca.
sv452 Nocturno Orfeão a 4 vozes 1891
sv445 Himno a Guttenberg Orfeão a 4 vozes  
sv453 1ª Barcarola Orfeão a 4 vozes  
sv442 As lixeiras anduriñas Arranjo do próprio autor para Orfeão .   Texto de Salvador Golpe Varela (1850 - 1909) 1890
sv473 Plegaria a la Virgen (El piélago del mundo) TTBB Segundo a versão apresentada ao concurso

1890

sv472 Plegaria a la Virgen (El piélago del mundo) TTBB ou TTBB+ órg. ou T + órg.

Segundo versão editada por Canuto Berea
1890
sv186 Introito Oficio y Misa de difuntos 1891
sv187 Negra sombra (TTBB) Letra de Rosalía de Castro (1837-1885) 1892
sv188 Negra sombra (SATB) Letra de Rosalía de Castro (1837-1885) 1892
sv451 Maruxiña si quixeres Letra de Aureliano José Pereira (1855 - 1906) 1892
sv455 2ª Barcarola Laureada com o Primeiro Premio no certame musical de Leão 1892 ca.
sv393 Lonxe da terriña Letra de Aureliano José Pereira (1855 - 1906)  
sv471 O salutaris Motete a 4 vozes sós 1896 ca.
sv456 Motete al Santísimo (Ego sum panis vivus)   1897 ca.
sv189 Kyrie Misa en Honor del apóstol Santiago 1897
sv190 Sanctus y Benedictus Misa en Honor del apóstol Santiago 1897
sv191 Benedictus Misa en Honor del apóstol Santiago 1897
sv241 Agnus Dei Misa en Honor del apóstol Santiago 1897
sv438 Genitori Manuscrito de Juan Antonio Moreno Fuentes